sexta-feira, 12 de maio de 2006

ASSÉDIO (1998, ITÁLIA), de BERNARDO BERTOLUCCI

Para o espectador que permaneceu com a lembrança de Beleza Roubada, elegante e entediante como um número especial de Côté Sud nas cidades toscanas, as primeiras seqüências de Assédio sabem surpreender. Numa ditadura da África do Sul, uma milícia armada semeia o terror e prende manu militari um jovem professor diante dos olhos de sua aterrorizada esposa. Depois desse prólogo violento, Bertolucci reintegra rápido suas pantufas e prefere perseguir sua reflexão sobre a situação política africana, confortavelmente instalado num apartamento romano de grande status, logo ali perto da Villa Médicis. A jovem mulher desembarca então na cidade eterna para terminar seus estudos de medicina, e trabalha na casa de um grande pianista como empregada fixa. Choque de culturas, frissons eróticos: durante duas horas, os protagonistas se espreitam, se procuram, evitam os olhares, como num intermédio lânguido de pornô soft. Se podemos nos interrogar sobre o que resta de desejo de cinema em Bertolucci, ele continua manifestamente a descobrir filmes porque ele recopia com aplicação a cena de arrumação de casa em jump-cuts e faux-raccords de Amores Expressos, o filme de Wong Kar-wai. O que não combina com muita coisa, já que a inspiração burlesca está dessa vez ausente. Pois manifestamente o cineasta sabe cada vez menos inventar corpos humanos que evoluem diante de sua câmera. Corpos idealizados de quase-top-models, eles são rapidamente absorvidos pela decoração de objetos sublime que os rondam. Até David Thewlis, histrião careteiro em Mike Leigh, está petrificado, congelado por uma encenação que reifica tudo que ela toca.

Entretanto, sob as mãos sucessivas de verniz se deixa entrever um assunto para o filme. Entre a refugiada política e o hipotecado ocidantal, nutre-se um laço problemático onde se misturam desejo sexual e culpabilidade política. Bertolucci instala um tipo de suspense sexual onde a escrava deseja çom muita força o seu mestre e onde o mestre deixa que venha a si a sua presa ao atraí-la com um sacrifício de todos os seus bens em proveito de sua causa política. No inconsciente do filme (pois as coisas não são assim frontalmente apresentadas), o combate pelos direitos do Homem é relegado à astúcia que permite ao quarentão branco levar uma bela Black para a sua cama. Todos esses quadros, todas essas escadas de pedra entalhada, todas essas tapeçarias cuja beleza o câmara chupa até o caroço, todas essas litotes e elipses na narrativa, só servem então para que Bertolucci se surpreenda a si próprio por não tratar o fundo de abjeção que o pressiona mas lhe queima os dedos.

Jean-Marc Lalanne, Cahiers du Cinéma n°533, março de 1999, página 82

4 comentários:

Sérgio Alpendre disse...

po, não estou entendendo essas homenagens. eu não sou muito fã do bertolucci. só de O Conformista e de A Estratégia da Aranha

Sérgio Alpendre disse...

tradução sua?

bruno disse...

Cê não curte ANTES DA REVOLUÇÃO (o melhor dele, fácil)?

Sérgio Alpendre disse...

gosto muito. mas o melhor é O Conformista

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