sexta-feira, 12 de maio de 2006

A doce morte. Em torno do desaparecimento de uma criança, o filme mais doce e mais circunspecto de Nanni Moretti. A primeira parte de O QUARTO DO FILHO descreve a felicidade da vida familiar burguesa e culta como uma publicidade ao chocolate em pó ou às companhias de seguros de vida. Cantam durante as viagens de automóvel, gracejam durante o pequeno-almoço. Mas debaixo desta aparência polida da felicidade, há qualquer coisa de assustador que germina docemente. Como diz o pai. “Nesta casa, tudo está gasto”.

Nanni Moretti é um virtuoso da cena breve. O pai requenta na cozinha um gratinado de legumes e de repente o prato cai e desfaz-se em pedaços. Fim. Compreendemos: tudo está partido e é tarde demais. Passamos à sequência seguinte. Moretti é um pintor pontilhista que pinta por minúsculas pinceladas justapostas. Abandonando o género do diário filmado dos seus dois filmes anteriores (“Caro Diário” e “Aprile”), ele consegue discorrer esta arte preciosa dos sketches num filme de ficção mais clássico. O êxito de O QUARTO DO FILHO está relacionado com um inteligente emprego da dosagem. Os momentos mais violentos (a notícia da morte do filho, o choro da mãe interpretada pela bela Laura Morante) são sistematicamente menores. Os picos dramáticos acontecem nas passagens menos esperadas: a crise de nervos de um doente erotomaníaco que vê o pai romper com o pacto analítico para o tomar nos braços, uma muito bela sequência de documentário sobre o encerro do caixão com ferro de soldar, um passeio pela praia com fundo de Brian Eno (By the River, a canção mais triste do mundo)... O filme joga finamente nesta alternância entre lítotes, retenções e exacerbação todos os azimutes da emoção melodramática.

Tranqüilo. O cinema de Nanni Moretti teve durante muito tempo um gosto de groselha. Pensamos que trincamos um fruto vermelho e açucarado, mas um sabor ácido ataca como quem não quer a coisa o paladar. Aqui, a acidez desapareceu. Mesmo o fundo terrível da morbidez e da culpabilidade infanticida que troa assume uma forma doce e tranqüila. O QUARTO DO FILHO é inegavelmente um filme belo. (...) Um filme que podemos preferir mesmo apesar das estridências passadas de “Palombella rossa” ou “La Messa è Finita”, essa época em que Moretti não queria ainda agradar a todos e que ao mesmo tempo afirmava categoricamente “eu sou um autárquico”.

Jean-Marc Lalanne, Libération

18 de Maio de 2001

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