segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Um bom blog é antes de mais nada um bom depósito de detritos.



Aqui (legendas em português aqui).

http://pierreleon.livejournal.com/

http://le-blob.blogspot.com/

sábado, 29 de agosto de 2009

Frase do dia

Amigo meu, logo após ler um texto (uma crítica de cinema, obviamente):

Definitivamente, brasileiro não fala português.



Não, como em Rossellini, a aproximação tateante da criatura rumo a um criador, tema exterior à mise en scène, mas o homem tornado deus na mise en scène, pela revelação de seus poderes, brecha aberta bruscamente na superfície das coisas e nos arrebatando.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Success is the Best Revenge (1984)

Skolimowski foi o único cineasta que aprendeu direitinho a lição do Passion do seu pupilo Godard, e por isso mesmo o único que foi capaz de ir mais longe que o próprio Godard nessa direção da montagem assíncrona.

Mais longe que Godard, Welles, Sganzerla, Carmelo Bene, qualquer um, qualquer coisa.

De tal forma que é possível afirmar que, na história do cinema moderno, Success... é o filme que fecha esse capítulo da montagem disjuntiva. De lá pra cá, nenhuma evolução real nesse campo*.

Melhor Skolimowski? Bem provável.

* sim, incluindo aí Ferrara.

P.S.: por sinal, o filme do Skolimowski é uma resposta bem direta, um prolongamento em forma de provocação, ao filme do Godard.

La Trincea, Vittorio Cottafavi, 1961, para a R.A.I.

Harry Black and the Tiger, Hugo Fregonese, 1958, com Stewart Granger.

A Slight Case of Larceny, Don Weis, 1953, M.G.M., com Mickey Rooney.

Sobre Avatar, tudo o que tenho a dizer é: in Jim Cameron we trust.

Pode até ser que saia um filme ruim, afinal dizem que pra tudo há uma primeira vez, mas o fato é que Cameron a essa altura do campeonato simplesmente não deve satisfação a mais ninguém a não ser a si mesmo e à sua intransigência.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

ENTREVISTA com Jean Douchet

Pode-se falar em renovação do cinema?

Jean Douchet: A renovação é fenômeno normal, em arte: há épocas clássicas, épocas maneiristas ou flamboyantes, barrocas; depois disto, alguma coisa renasce. O movimento que era bem visível há 5-10 anos, de capitalização do cinema precedente, no que tinha de ‘alimentar’ para o imaginário dos outros, começa a desaparecer; estamos recomeçando a construir alguma coisa a partir daquilo. Vê-se claramente em todos os cinemas do mundo, dos mais diferentes diretores. Impressiona-me a quantidade de rumos diferentes que o cinema está tomando, em vários lugares do mundo: pode-se falar do “Dogma”, de Kiarostami, dos cinemas asiáticos, do cinema americano que se torna múltiplo – e que não era múltiplo, antes, limitado entre o cinema bem enquadrado de um lado, e o cinema marginal e independente de outro. Tudo isto se mistura cada vez mais. Há claramente uma necessidade de reconstruir um discurso, uma escritura, um pensamento, e acho que isto está ligado a uma necessidade mais geral, mais política e sociológica: a inquietude que se sente em face de um mundo cujas regras já não compreendíamos, pois já não havia regras. E começa-se a perceber que, mesmo assim, há um combate que temos de combater e que isto se traduzirá em filmes; e neste combate que temos de combater haverá também filmes feitos por gente a favor do sistema. De fato, são dois combates, ou contra ou a favor. Um pouco, estamos de volta à Guerra Fria, apesar das diferenças. Haverá – e é simbólico – o campo Spielberg e o campo Kiarostami, os que querem destruir o cinema satisfeito consigo mesmo e os que são contestáveis, porque apostam numa certa baixeza do olhar do espectador.

Não é crime fazer cinema caro, pode-se fazer qualquer coisa, penso em De Palma ou Coppola, mas estes não são os cineastas que têm mais dificuldades com o sistema. Os que não têm dificuldades com o sistema são os que fazem os filmes mais caros, para cercar todos os sentidos do público. Os outros cinemas são cada vez mais diversos, e o ponto em que se pode pensar em engatar uma segunda é que a multiplicidade dos cinemas faz surgir cada vez mais gente interessada por este cinema. O problema é que se divulgam hoje todos os cinemas, filmes que não se viam antes e hoje se vêem, isto faz ferver muito o ‘caldeirão cultural’.

“Cinema de conhecimento”

Sou por um cinema de conhecimento, o cinema é feito para fazer-conhecer, é sua origem científica; ou o cinema é feito para distrair e divertir, o que não é mau em si, não há por que ser contra. Também pelo divertissement pode-se chegar ao conhecimento, como Hitchcock mostrou tão bem. Não há incompatibilidade. Inaceitáveis são, isto sim, os que recusam completamente o fenômeno do conhecimento e querem impor uma ideologia, uma visão de mundo. Kubrick fala disto em seu último filme: de o quanto estamos contaminados, cancerizados pelo dinheiro. Estamos destruídos, perdoe-me a expressão, até os colhões. Estamos destruídos. Não é verdade que haja instintos, somos produtos da sociedade até nossas partes mais íntimas, somos ligados ao dinheiro, o que se traduz no filme pela luz, a luz é a encarnação do dinheiro, como as sociedades sonham o mundo. Estamos destruídos por estas cintilâncias e gostei muito de que os americanos não tenham gostado do filme; é sinal de que não conseguiram não sentir.

É curioso, porque, se se pensa no período 1907-1910, quando a surpresa do cinema começa a diminuir e tudo passa a ser jogos de trucagem dos quais, parece, o público gosta... imediatamente depois surge Griffith, que mostrará que o cinema é completamente outra coisa. Hoje, é esta avalanche de efeitos especiais, o virtual etc. Nada disto é importante. Nada impede que se use seja o que for, qualquer procedimento, pode-se perfeitamente fazer um filme completamente virtual e fazer um grande, enorme filme. Tudo dependerá do pensamento que haja no filme. Se for completamente comercial não interessará. Os filmes estão ficando cada vez mais caros e, um dia, alguém aí quebra a cara.

“Os grandes filmes estão sendo fetichizados”

O conhecimento hoje se reduz à fetichização do próprio filme: conhecemos todas as falas, respondemos em coro com os atores... É uma espécie de ridicularização do filme, mascarada em manifestações de adoração. O jovens não viram os filmes, como nós, em cinemas, em película, em 35mm.; vêem em vídeo. Mas, de qualquer modo, eles têm uma relação possível com o cinema, que é franca, interessada. É verdade que já não crêem no cinema, conhecem os truques, zooms, travellings etc. Então, procuram a parafernália tecnológica dos efeitos especiais, ou, ao contrário, querem encontrar elementos de ‘verdade’ que os interesse ver. Ao mesmo tempo, os cineastas têm de considerar que o público já não é virgem, quer dizer, é blasé. É preciso oferecer ao público, também, um modo de ver. De que modo você vê? Você vê para quê? Se vê apenas para comprar o sensacional, a mercadoria, então este olhar é imundo.

Se o comunismo morreu, em colisão frontal contra o muro de Berlim, estou praticamente convencido de que o capitalismo morrerá logo, em colisão frontal contra o muro do dinheiro, o próprio dinheiro que move o mundo, à custa de correr desatinadamente rumo a nada. Estamos correndo o risco de desequilibrar equilíbrios vitais e isto ganhará forma visível, cinematograficamente falando. O público pressente isto. Os jovens, hoje, são atormentados pelo desemprego. Isto altera o modo como eles vêem o mundo. É preciso que alguém ponha em imagens, na tela, estas angústias, estas perguntas... mesmo que não sejam reproduções naturalistas, ‘como na vida real’. Rosetta por exemplo, que não é nenhuma obra-prima, é um filme importantíssimo porque muita gente se reconhece naquela personagem, que é excessiva, sim, mas que diz isto. E há um olhar que vê aquele filme, um efeito, um estilo. Rosetta é Palme d'Or em Cannes, se comparado a filmes muito mais prestigiados. É possível, há a possibilidade, dentro do próprio cinema, por imperativo artístico, de nadar contra a corrente do pensamento dominante (que é o pensamento da grana).

Quem queira ser totalmente independente, tem de voltar ao cinema puramente experimental, claro, com câmera digital, ou vídeo, e filmar sem gastar nada, ou gastando quase nada. O experimental também pode trabalhar com orçamento mais folgado, é claro, são possibilidades da escritura.

Se um diretor como Lars von Trier pode trabalhar assim, é porque atraiu capitais. Seja como for, sempre estamos dentro de um sistema em que a obra de arte é mercadoria, avaliada como mercadoria – mas pode ser boa arte.

Todos os cinemas são possíveis. Mas, nos próximos dez anos, se não se mudar o sistema de distribuição, desaparecerá o cinema independente. Ou as salas equipam-se para diminuir os custos de distribuição (cópias, aluguéis, fretes, seguros). O verdadeiro problema é como informar ao público potencial do cinema independente que este cinema existe e fazê-lo desejar conhecer este cinema. As grandes produções não têm este problema, porque se alimentam da culpa que a publicidade comercial cria entre as pessoas que não conheçam os filmes arrasa-quarteirão. A crítica também é culpada, porque não fala senão dos filmes mostrados ‘à imprensa’.

“Todo o sistema tornou-se fantasmático”

Todo o sistema tormou-se fantasmático. Há a grande estrutura, mas não há nada dentro dela. Veja as redes Multiplex. É uma loucura, conversa pra engambelar otários: fingem que nos oferecem variedade, mas, cada vez que pagamos para assistir à ‘variedade’ das redes Multiplex estamos, ao mesmo tempo, matando todo o outro cinema, o cinema independente, quer dizer, estamos matando a multiplicidade. E quando, por acaso, algum filme independente consegue acesso àquelas salas é para ser massacrado pelas baixas audiências, salas vazias etc. Os próprios Multiplexes condenam-se à morte. É o fenômeno do ogro: mais cedo ou mais tarde, o ogro destrói-se, ele mesmo.

O que temos de construir são verdadeiras novas vias para difundir o cinema independente – o que implica, sim, o problema da divulgação e promoção, mas também implica que os críticos critiquem, que os ensaístas pensem e trabalhem e escrevam e falem, que a sociedade produza, afinal, pensamento novo. Isto, pelo menos, seria o ideal.

A realidade é que os críticos vêem cada vez menos, os novos filmes aparecem cada vez menos, cada vez menos surgem novos talentos e, se surgem, são logo atraídos para o cinema ‘velho’ o qual, contudo, não os recompensa pelo talento, mas por quanto cada filme gere, de lucros... E lá estamos, outra vez, em colisão frontal contra o muro de dinheiro, que intimida, quando não esteriliza, os novos talentos.

Teremos uma chance, se inventarmos uma possibilidade real de difusão, em pés de ‘concorrência’, de todos os produtos que o cinema está gerando. A força das majors norte-americanas está em que são os atacadistas, distribuem no atacado e, assim, controlam o mercado. Constróem monopólios... que acabarão por matar, também para eles mesmos, a galinha dos ovos de ouro. A galinha dos ovos de ouro está na multiplicidade, não na uniformidade que, aliás, é cada vez mais cara... e um dia explode, como todos os monopólios sempre explodem.

“A crítica também está presa no paradoxo do ogro.”

Estamos vivendo os momentos finais de um sistema, no qual todo mundo protege todo mundo, ao mesmo tempo em que todos fazem ares de ‘criticar’ os outros, uma ‘crítica’ que, de fato, mais preserva do que visa a transformar. É hora de mudar os modos de produção, de distribuição, de difusão e, também, os modos de ver. O que está aí está agonizando. Jamais houve, na história da humanidade, uma invenção que não tenha encontrado imediatamente o seu utilizador, no sentido mais forte da palavra ‘utilizar’. No cinema, é muito evidente: o cinemascope é Nicholas Ray, o zoom é Rossellini, a película ultrassensível é Godard etc. Quando se instalar um sistema de difusão por cabo, tudo mudará.

Com o vídeo e o computador, não dou dez anos para que haja uma revolução total no sistema. Aconteceu no final do ano 1000, do primeiro milênio, e está a ponto de acontecer também no cinema. Em no máximo 15 anos haverá uma revolução. Acho que as salas de cinema sobreviverão: o teatro não morreu, apesar de ter sido ‘morto’ pelo cinema, como dizem tantos. Desaparecerão as cabines de projeção, talvez se possa receber os filmes em casa, as telas aumentam cada dia mais, ficam mais planas, quase de hora em hora. Como o atual sistema de distribuir filmes poderia sobreviver?

Vai acontecer um terremoto, voltaremos a técnicas antigas. Afinal, o grande cinema sempre foi artesanal, mesmo que não tenha sido só artesanal, mesmo que só a ‘carpintaria’ não baste. E ninguém precisa manter-se preso no seu próprio sistema. Veja os filmes dos Straub, que são modelo de produção autônoma e autogerida. Os Straub atingiram a perfeição absoluta no sistema deles. E é claro que também é preciso respirar, ver o mundo à volta de cada um. Quem se fecha em si cria no entorno uma atmosfera irrespirável, mesmo que seja ‘intrigante’ ou ‘interessante’; é insuportável, mesmo assim.

“Godard, o inescapável.”

Para mim, o único cineasta incontornável, do qual ninguém poderá jamais escapar é Godard. Godard é o grande cineasta do fim do século 20, mas é também o maior artista vivo, consideradas todas as artes. Godard oferece cinema de conhecimento, extraordinariamente aberto. Não estou dizendo que seja alguma espécie de Bíblia, mas é indispensável mergulhar no sistema de Godard, também para, se for o caso, sair dele. Godard abre tantas possibilidades – porque pesquisa e propõe perguntas –, que dali se pode partir para praticamente qualquer coisa. É o autor das mais belas e ricas imagens que o cinema jamais ofereceu, não só ao cinema mas às artes plásticas.

Aprender a digerir Godard é processo lento. Godard está 25 anos à nossa frente. É preciso paciência. No início, o público fugia dos filmes de Rossellini, sobretudo durante a fase com Ingrid Bergman. Hoje há Hou Hsiao-hsien, Kiarostami, Coppola, De Palma, até Cronenberg; também, na França, há revelações, mas ainda não há grandes confirmações. Desplechin, por exemplo.

O documentário

Quanto ao documentário, voltamos à necessidade que todos estão sentindo de ver cinema de conhecimento. Comolli e outros. O documentário propõe uma pergunta importante ao cinema: que imagem, para que olhar? A câmera só tem um olho. Este olho tem de olhar de um determinado modo. Que modo é este?

“O espectador é parte constitutiva do filme. Trata-se de exumar a inteligência do espectador.”

Tenho certeza de que os espectadores acompanham tudo isto e recuperarão a fé no cinema. Se se aceita que o espectador seja parte constitutiva do filme, tudo é possível. Mas degrada-se o espectador se se o vê como alguém que se quer pegar pela goela, para arrancar dele o máximo de dinheiro possível. O público não é uma entidade desconhecida. O público é gente como a gente: às vezes, temos cintura dura, cabeça dura, temos preguiça de pensar. Mas o público também inclui gente que quer pensar, que sabe pensar, gente inteligente. Em muitos casos, trata-se de exumar a inteligência do público. Ou, ao contrário, trata-se de favorecer a preguiça geral. Aí, o movimento é no sentido de embrutecer, de abastardar cada vez mais a inteligência, até, dos mais inteligentes e dos que queiram pensar.

“A interatividade é bobagem, para o cinema.”

Não acredito na tal de ‘interatividade’, para o cinema. Vejo como uma espécie de traição. O pior que poderia acontecer é dar aos espectadores a falsa idéia de que eles ‘sabem de cinema’, que conhecem cinema. A idéia de que qualquer um pode brincar com imagens e, assim, mostrar-se ‘criador’. A ‘interatividade’ no cinema é uma espécie de armadilha: as possibilidades são limitadas, estão contidas nos programas. Converte a arte em uma espécie de joguinho de criança. É bobagem.

---

Isso há mais de dez anos.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Steven Seagal: Lawman on A&E



Após anos e anos de lixo, finalmente o formato encontra sua justificativa.

domingo, 23 de agosto de 2009

sábado, 22 de agosto de 2009

Eu podia passar o resto do ano assistindo somente Marco Ferreri.

Like for instance, in real life that Goebbels did, that wasn’t Nation’s Pride, but was his last ditch effort saying, "We're not gonna win anymore battles on the battlefields, but we’re gonna win one in the cinemas." That was a movie called Kolberg that told the story of a Prussian village that repelled Napoleon’s Army. Now you don’t have to be a genius to figure out when you’ve got the Americans on Normandy and the Russian’s banging at the gate, who they’re referring to in their little parable of strong Germans holding the fort. So it’s not just as blanketed as, "Oh all they did was anti-Semitic movies." Oddly enough, any movie made where Goebbels is the head on it is going to be political by its very nature, alright. Whether by what they say or what they don’t say – what they don’t allow being said. I have to say that there is one movie that I really like, the one that they refer to, Lucky Kids, also known as Glückskinder, it’s very funny. It’s a very funny screwball comedy. And they re-created New York in the movie. And it’s one of those things, just like in American movies, you’ll watch The Shop Around the Corner and it’s supposed to be in Budapest, but obviously they’re all speaking English. Well this is supposed to be taking place in New York and they’re all speaking German, and that’s just kind of cute.

KM: Lucky Kids is like It Happened One Night

QT: Yes, it’s actually Goebbels’ version of It Happened One Night.

Rosenbaum finalmente chegou no mesmo nível do Armond White.

O que já tinha como ser previsto a partir de qualquer análise minimamente séria do que ele vem escrevendo há mais de dez anos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Faubourg Saint-Martin ça débute comme une histoire d'amour et ça finit comme une chanson. Clichés et refrains ponctuent le joli mélodrame feutré que vient de réaliser, après sept ans de chômage forcé, l'un des plus doués des jeunes cinéastes français, Jean-Claude Guiguet. Son premier film, Les Belles Manières, avait déjà planté le décor (l'amour peut-il traverser les barrières sociales?). Faubourg Saint-Martin fait plus : il réinvente cette frénésie de bonheur, de chansons susurrées entre amants magnifiques, toute cette toile de fond sentimentale et populaire qui faisait le charme des films français d'après-guerre. Alors, c'est rétro ? Populiste ? Vecchialien et «Diagonale» en diable ? Encore une de ces histoires nostalgiques des dernières séances d'antan, qui sentent le renfermé ? Pas du tout. Faubourg Saint-Martin réussit à éviter les pièges du second degré, de l'hommage respectueux aux stars du passé (et aux personnes âgées) avec une innocence et une légèreté qui le placent d'emblée hors du temps. Hors du temps et de la géographie : dans un hôtel presque insituable entre le Canal et la porte Saint-Martin, quelques êtres de passage vivent des passions brèves et s'expliquent. Ils parlent entre eux et, surtout, ils lui parlent, à elle. Elle, c'est Patachou. Une Patachou complètement inattendue dans un rôle impossible de tenancière d'hôtel. à la fois maman, confidente, patronne de bordel, maîtresse zen et cartomancienne, elle a une assurance qu'on n'avait pas vu au cinéma, depuis, disons, celle d'Anne Bancroft dans le dernier film de John Ford, Frontière Chinoise. Elle lance deux phrases sèches de sa voix rauque et aussitôt le monde s'écroule et un autre se profile. Comme le fantôme des chansons sentimentales qu'elle chantait et que Guiguet a eu l'intelligence de laisser en réserve, quelque part à l'arrière plan de son film. Patachou ne murmurera aucune musique aucun refrain ne fera remuer ses lèvres et pourtant pris dans l'épaisseur mythique des histoires que le film brasse à la vitesse d'un Fassbinder cocaïné à l'oxygène pur, cet univers est bel et bien là. Un anglais aristo-snob se plaint à tout bout de champ (c'est Howard Vernon), une passante radote (Paulette Bouvet). Un vieux monsieur aide une jeune fille meurtrie. Mais surtout, leur vie sous la protection officieuse d'une quatrième au nom improbable Coppercage (Coppercage, c'est bien-sûr Patachou). Dans son hôtel, elle héberge, au mois, la marquise (Françoise Fabian) qui fait des passes avec élégance, peut-être pour nourrir son fils de dix ans, peut-être par ennui. Suzanne, une apprentie chanteuse à la voix acide (Ingrid Bourgoin, plus Arletty que jamais) et enfin Marie (Marie-Christine Rousseau), en train de découvrir, au moment où le film commence, que l'amour est une chose merveilleuse qui vous emmène au moins au septième ciel mais peut aussi, si l'on n'y fait pas gaffe, vous faire redescendre (sur terre) vite fait. L'amour de sa vie est un beau garçon grassouillet (Stéphane Jobert), qui sait parler aux femmes comme Gabin du temps de sa jeunesse. Il y a évidemment du drame dans l'air mais nous n'en dirons rien. On pense évidemment à Simone Barbès. Faubourg Saint-Martin, aussi, se construit autour d'une triple intrigue faite des amours de ces trois femmes différentes, l'une avec son Roméo, l'autre avec un amant de passage ou avec son jeune fils, la troisième avec personne (le discret personnage d'homme à tout faire joué par Emmanuel Lemoine lui avoue son amour trop tard, quand le film est déjà fini). Plus une myriade de mini-événements émouvants, musiqués classique ou populo : un accordéon lyrique sait parfaitement, faire chanter à l'improviste les images, la chanson n'arrivant que par un tour de force de dernière minute : c'est le repas de mariage des deux amants et Fabian se met soudain, avec une douceur terrible, à chanter : «Ah ! je suis bien votre pareil, ah ! je suis bien pareille à vous». La délicatesse mélodique est telle que les paroles d'Aragon s'effacent pour faire place à la joliesse insensée de la musique de Ferrat. Ces paroles d'Aragon sont pourtant l'âme du film : dans la plus belle scène où Patachou rencontre pour la première fois le jeune amant de Marie, elle lui glisse dans un souffle qu'ils se ressemblent tous les deux («On serait même plutôt de la même famille») avant de le congédier d'un «Va ! Reviens demain» qui ne peut s'adresser qu'à un fils, un semblable ou un double. C'est parce qu'il a su faire passer ce souffle d'inceste tendre et de poésie que Guiguet, avec quatre sous, a réussi le plus beau film qu'on ait vu à Cannes depuis longtemps.

Louis SKORECKI. in «Libération» (mai 1986)



Nas nossas vidas vivemos a emoção até que ela se vá.

Sábias palavras.

P.S.: isso aqui sim que é cinema moderno.

E também admiro a Antena 1.

Eu também admiro o Rod Stewart.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

"Eu me chamo Frédéric, Rio Bravo é teu filme preferido, repita comigo. É a última fronteira, o western em frangalhos que se autoparodia, o filme de gênero que recapitula todos os outros, a linha vermelha além da qual o teu ingresso não vale mais nada. Depois de 59, depois de Rio Bravo, o cinema decide viver no dia a dia, à luz do dia. O cinema do dia, caso não saibam, é a televisão. Muita água rolou desde então, o cinema hoje é a tele-realidade. Vocês não concordam comigo, estou pouco me lixando. Vocês pensam que as séries televisivas, 24 Horas, Nick/Tup, Oz, Os Sopranos, tomaram o lugar do cinema. Vocês estão atrasados em pelo menos vinte anos, estes anos capitais do pós pós-cinema onde ocorreu justamente o contrário: foram os filmes de cinema que se puseram a pastichar à toda a televisão, as séries de televisão em todo caso. Rio Bravo só existe hoje como minstrel movie, um filme que se esgota no travestismo de seu roteiro e de seus atores. Os minstrel show do século 19 permitiam a um público branco ver os negros sem se assustar além da medida, precisamente na medida em que brancos maquiados de forma ultrajante os interpretavam, só conservando dos corpos negros os excessos, o grotesco e o patético, como mais tarde os travestis farão com os corpos das mulheres. Vocês vão me dizer: qual a ligação com John Wayne, Angie Dickinson, Ricky Nelson? Ora, não ver na peruca de John Wayne, em seu corpo volumoso, em seu ar de mocinha assustada com uma mulher grande demais, ou vestida com colantes cor-de-rosa demais (ou seja: os atributos de drag queen); não ver que Angie Dickinson e Ricky Nelson são ainda mais explicitamente travestis e maquiados que ele, não ver isso é recusar o cinema, o cinema à luz do dia. Mas afinal de contas, por que não, não é? (Fréderic Beigbeder em les Cinéphiles: les Ruses de Frédéric, 2006)."

Jacques Tourneur, por Louis Skorecki

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

domingo, 16 de agosto de 2009

Inútil imaginar como seriam os filmes que Brisseau, Rivette e Straub não fizeram no formato Scope; estes já foram feitos por Freda, Preminger e Lang.













Dans Les Vampires, je vois les deux enquêteurs guidés par le hasard et uniquement par lui vers la solution du problème, et au seuil de l'atroce: l'un d'eux mourra de s'en être approché trop près; l'autre triomphera, car il le faut, mais son triomphe sera pire que la pire défaite. Dans le même film, les jeunes filles capturées par le drogué, le drogué soumis à son docteur et alimenté par lui, le bourreau soumis lui aussi à la duchesse qui abrite ses expériences, la duchesse elle-même esclave du temps et du vieillissement, forment une ronde infernale (mais calme et ordonnée comme un spectacle) que l'auteur s'efforce surtout de ne pas briser par un commentaire, ou une évaluation morale. Il y isole simplement quelques instants de silence et d'immobilité, où le temps pourra s'arrêter, et qui ne sont en fait que l'attente d'une violence plus grande, ou le cri arrêté dans la gorge. La duchesse (Gianna-Maria Canale), seule dans sa chambre, met en marche une vieille boîte à musique. La musique s'égrène, évoquant un passé lointain. La duchesse s'approche d'un miroir, et s'y regarde. Elle voit ses prunelles fixes qui ne marquent pas d'âge, son visage lisse et immobile où elle ne lit aucune émotion, sinon une immense surprise d'être elle-même. Elle caresse ses joues, sa peau très blanche sous laquelle coule (à peine) le sang d'autres jeunes femmes sacrifiées. A cet instant, ce que nous n'osions pas espérer arrive: le cinéma existe.

Jacques Lourcelles, Un homme seul, Présence du Cinéma nº 17, primavera 1963

Em cinema, Portugal dá baile

É evidente que o Inácio está redondamente enganado quando fala sobre o cinema francês, que teve a pior década de toda a sua história agora e que há pelo menos uns 30 anos é incontestavelmente inferior ao que se produz de melhor em Portugal. As exceções não apenas confirmam a regra como a reencontram: seja via Paulo Branco, seja via Rivette, cujos últimos trabalhos se assemelham demais aos de Oliveira, ou ainda Brisseau, Chabrol, Guiguet, Biette e Eugène Green - que em dado momento de suas carreiras encontraram subsídios apenas em Portugal -, Alain Guiraudie, Rousseau, Serge Bozon, Arrieta, Moullet, Rohmer, cujos temperamentos lembram muito mais os dos grandes portugueses telúricos que essas caricaturas francesas (um exemplo dentre mil: Faut que ça danse!) que assolam mais e mais maciçamente nossas telas.

Ainda assim, um texto extremamente estimável e desde já leitura obrigatória.

sábado, 15 de agosto de 2009

Em "cinema brasileiro", a palavra importante é "cinema".

E por sinal: foda-se o "cinema brasileiro". Pronto, assim minha cota de generalizações está preenchida até o final do ano.

Uma cena entre Daniel de Oliveira e Leandra Leal, pouco mais de um minuto.

Uma das piores coisas que já assisti na minha vida. Quase tão ruim quanto Ilha das Flores - desta vez não tem close em rosto de velha banguela filmado em câmera lenta e uma cartela ao final com as palavras "O RESTO É VERDADE", mas é quase tão ruim e mentiroso quanto.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Os dez minutos iniciais de Suspiria?

Esqueçam.

Os quatro minutos iniciais de Beatrice Cenci do Freda.

Simplesmente não existe coisa mais suntuosamente delirante na história do cinema.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Acreditar que conseguirão descobrir, localizar, discernir, detectar e posteriormente compreender, radiografar, descrever a "modernidade" perambulando pelos festivais e mostras de cinema, ter como meta uma tarefa tão ingrata e fadada fundamental e inevitavelmente ao fracasso mais completo, esse não será o último exemplo terminal do caipirismo irremediável da nossa crítica - ainda haverá muitos outros, podem apostar.

'twitter é brega' eu há algumas semnas atrás, por uma questão de coerência, cá estou eu.
about 11 hours ago from web


O único Twitter que acompanharei.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Realmente não ia falar nada sobre o assunto, basicamente porque esperava que as pessoas percebessem em algum momento ou em outro o grau de estupidez que estão estimulando no debate crítico de um filme.

Fato é que eu simplesmente não consigo acreditar que nos tempos em que vivemos alguém ainda dê algum crédito de importância ao que DÉBEIS-MENTAIS como Bernardet (Mausoléu Uspiano, Tutankhamon de teorias acadêmicas? Gimme' a fucking break) e Escorel (Piauí? HAHAHAHAHAHAHAHA) acham ou deixam de achar, pensam ou deixam de pensar.

Que esse "alguém" seja boa parte do que supostamente constitui nossa suposta crítica de cinema nos diz muito, justamente, do momento que, com muito sacrifício e desta forma com muitas baixas, atravessamos.

Sobre o último Moullet.

Além de Claude Santelli, há Jean-Marie Drot, Claude Barma e Marcel Bluwal disponíveis no e-mule.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Apache Drums do Fregonese.

ed2k://|file|Apache%20Drums%20(1951).avi|944099328|52DD37E799A906260EE508FA7B143DDE|/

Eminentemente crítico

Ainda não assisti ao filme, Inácio, mas acho importante que a crítica não passe a mão na cabeça dos filmes brasileiros e isso tem acontecido.

domingo, 2 de agosto de 2009

Baixando Cuore, seis horas de Luigi Comencini (aqui, aqui e aqui).

Deus abençoe o e-mule.

Aqui.

Se for confirmado que está mesmo em 4:3, não comprem.

sábado, 1 de agosto de 2009

Arquivo do blog