domingo, 31 de julho de 2011

E Jonathan Mostow é do caralho (chamou o filho do De Toth para montar - brilhantemente, diga-se de passagem - T3; manja).

Conversando com o Miguel sobre Anatahan, que tive o prazer de assistir pela primeira vez ontem.

Curioso esse achatamento espacial geralmente adotado pelos grandes cineastas nos seus trabalhos tardios, que faz com que os filmes se assemelhem a diagramas abstratos, violentamente frontais a ponto de parecerem paupérrimos - penso nos filmes do Matarazzo com o casal Sanson-Nazzari, em Beyond a Reasonable Doubt, The Human Factor, A King in New York, The Shadow Box, The Naked and the Dead, Sócrates, Psicose, Ohayô, Rio Bravo, The Cavern, Liberty Valance, Anatahan, Filming 'Othello', The Black Scorpion, Night of the Demon, Most Dangerous Man Alive, não coincidentemente obras-primas, misteriosíssimas como tais em vista de todas as limitações (aparentes) de seus estilos; digo 'aparentes' porque evidentemente trata-se na realidade de dispensar as seduções e os aprazimentos a que as obras anteriores, provavelmente no momento de suas carreiras em que seus estilos floresciam, nos acostumaram, quando talvez ainda tivessem o que provar a si mesmos. Podia falar também dos filmes do Jack Arnold dos anos 50, de Brisseau e Oliveira ou dos primeiros Fassbinder, que mesmo não sendo "últimos trabalhos" correspondem perfeitamente a esse estilo sintético.

Há também o fato, bem lembrado na discussão pelo Miguel, de que além da austeridade e da síntese com que tornam desnecessário enfatizar, demonstrar ou chamar a atenção para o que quer que seja, tais cineastas, desfalcados da série A para uma espécie de "série B extra-industrial", fizeram o único cinema verdadeiramente "indie" e "underground" a partir da escassez dos pressupostos com que atuavam (sucessores: Raoul Ruiz, Luc Moullet, talvez Chabrol).

Última observação: o aplainamento espacial seria, contrariamente ao 3D, a verdadeira culminação de todo grande cinema? (exceções: Cimino e Straub/Huillet, provavelmente os únicos cineastas verdadeiramente 3D de toda a história do cinema)

Em meio a todo esse nhénhénhé sobre censura, li apenas duas coisas interessantes a respeito do assunto nos últimos dias: o texto que o Ivan Cardoso publicou no facebook e um velho artigo do João Bénard da Costa sobre O Nascimento de uma Nação, aqui.

Já o texto do Cezar Migliorin é mitificação alheia e auto-legitimação pura com retórica acadêmica sentenciosa, cheia de sofismos, silogismos e argumentos artificiosos, em suma aquela coisa demagógica, tendenciosa e detestável de sempre.

Politically, I'm angered because most (though not all) of this silliness is emanating from the self-proclaimed Left. We're witnessing here a profound historical volte-face. For most of the past two centuries, the Left has been identified with science and against obscurantism; we have believed that rational thought and the fearless analysis of objective reality (both natural and social) are incisive tools for combating the mystifications promoted by the powerful -- not to mention being desirable human ends in their own right. The recent turn of many "progressive" or "leftist" academic humanists and social scientists toward one or another form of epistemic relativism betrays this worthy heritage and undermines the already fragile prospects for progressive social critique. Theorizing about "the social construction of reality" won't help us find an effective treatment for AIDS or devise strategies for preventing global warming. Nor can we combat false ideas in history, sociology, economics and politics if we reject the notions of truth and falsity.

Eis o que aconteceu durante toda a última década com a crítica de arte, especificamente com a cinematográfica, como mencionado pelo Labarthe no início do vídeo sobre Les savates du bon dieu abaixo.



Cada vez que alguém diz "cinema clássico-narrativo" nasce um cruzamento de Jean-Claude Bernardet, Gilles Deleuze, escola de Frankfurt, Michel Maffesoli, estética da confissão afetiva em cine-diário, Foucault, Derrida e marxismo cultural.

Pegadinha: que fazer diante de Rohmer (clássico?) e os Lumière (narrativo?), hein sabichões?

terça-feira, 19 de julho de 2011

domingo, 17 de julho de 2011

Por que o Bertolucci não permaneceu o resto de sua malfadada carreira dirigindo bons documentários?

O segundo episódio de La via del petrolio: definitivamente uma das fortunas perdidas do cinema moderno. Rouch, Rossellini, Perrault, Saraceni, Ivens...

Na volta à Itália após a passagem pelo canal de Suez, pela primeira - única? última? - vez a poesia na maioria das vezes embotada do Bertolucci se desfaz de todas as trivialidades, todas as alusões, para se liberar na atmosfera chuvosa, nos céus carregados, na luz difusa que banha as ladeiras e as vertentes da costa italiana cruzadas pelo navio petroleiro, ou na maravilhosa narração que descreve a volta para casa e devolve à paisagem, unicamente pelo dom da voz, aquilo que há de mais elementar e precioso na poesia - a saber, a expressão de um sentimento.

A passagem pelo canal de Suez:



E um texto excelente sobre Bertolucci aqui.

Enfim, não é o único caso de bom cineasta que decaiu desgraçadamente.

domingo, 10 de julho de 2011

Arquivo do blog