domingo, 29 de dezembro de 2013

Conservadorismo estético, servilismo cultural, covardia adolescente e senilidade precoce

Caro sr. Poorhappiness,

convém lembrar, antes de mais nada, que eu descobri o Guiraudie há pelo menos uns quatro anos antes de todos aqui no Brasil (incluindo, como é de se esperar, um cordeirinho aplicado, maria-vai-com-as-outras apelão, sem visão, sem talento e naturalmente sem capacidade de antevisão como você), todos que, como sempre (e como você), costumam embarcar no reconhecimento de um nome apenas a partir do momento em que há hype em torno dele (como, por exemplo, foi o caso à altura de O Rei da Fuga, para dizer bem dito e como todos bem sabemos - e que, oh coincidência!, foi também a altura em que você o “descobriu”).

Dito isto, podemos ir por partes. Comecemos com o “macmarronzinho”:

I) Reconhecer a existência e a importância de algo não torna ninguém automaticamente um assecla a apontar o indicador para quem teria ou não a honra de participar de uma “seita” (coisa que você provavelmente não seria capaz de entender, em vista de como atuou como editor - a bem dizer cacique cultural e ditador de consensos - da Contracampo). Por exemplo: o que fazer com críticos como Jean-Claude Biette, Dominique Païni, Peter von Bagh, Jean Narboni, Adriano Aprà, Axelle Ropert, Jean-François Rauger e o próprio Assayas dentro da estreiteza de visão dessa caricatura analfabeta de macmahonismo que você, no seu completo desconhecimento teórico do mesmo, pinta? (a título de esclarecimento, não pela tua ignorância, que como sempre permanecerá intacta ao fim de tudo, mas pelo possível interesse dos outros: os oito são epígonos contemporâneos ou tardios do movimento). Não me fale que você, a partir de uma compreensão míope, oportunamente ardilosa, propositalmente me-engana-que-eu-gosto, ainda espera que esse número cole... Mas se você realmente acha que um engodo intelectual - que por anos viveu de falsear, sombrear, apagar ou mais simplesmente se equivocar a respeito de questões pertinentes mas que acabavam repudiadas a partir do momento em que causavam mesmo que o menor incômodo e/ou embaraçavam mesmo que a menor das certezas de salão (uma dessas questões: o macmahonismo) - tem alguma capacidade para vir cantar de galo na seara teórica, então daremos prosseguimento (e não falo apenas do que escreverei abaixo, pois não espero que você saia dessa capa de “desinteresse” para discutir, uma vez que evidentemente não tem, nunca teve nem jamais terá culhão ou capacidade para isso).

II) Como já escrevi anteriormente numa outra resposta sobre o macmahonismo, também aqui no blog, desta vez serei ainda mais curto (não quero dar mais murro em ponta de faca do que já estou dando agora): Pierre Rissient, a eminência parda do macmahonismo (que como toda pecha jornalística é simplesmente carente de coerência uma vez utilizada por charlatões metidos a pensadores), é apenas e tão-somente o mesmo sujeito que descobriu Hou, Kiarostami, Tarantino, Eastwood, Hong, Friedl, Jia, Yang, Im Kwon-taek (responsável, também, pela estréia parisiense de um tal Não Reconciliados) e mais uns 100 cineastas que você, do alto da sua ignorância disfarçada de pedantismo e soberba, admira sem sequer desconfiar que são cineastas de estima, bem como frutos da inquietação e da insatisfação, do tal do “macmahonismo”. E aí, vai trair o movimento, amiga?

III) Confesso que rasguei meu cu de rir com a mera sugestão do Jean Douchet como “macmahonista” (!!!), simplesmente porque ele gostava de Walsh, Losey, Lang e Preminger no início dos anos 60 (como era o caso de mais ou menos, sei lá, 96% dos cinéfilos parisienses que escreviam críticas para as revistas importantes do período). Mais uma vez você sem querer revela o grau de desinformação e desconhecimento factual de quem (acha que) conhece a história da crítica cinematográfica unicamente por decorebinha dos tomos do De Baecque. O que me leva a crer que a alcunha do teu espaço no Twitter talvez seja uma das escolhas mais sensatas já feitas por você.

Antes de passar à lista, só queria comentar brevemente como é apenas aberrante comparar, em qualquer sentido, um filme tão desleixado, afetado e invertebrado como o Spring Breakers ao pensamento que sustenta a obra de um cineasta tão fundamental, concreta e cruelmente elíptico como o Buñuel. Mas como também sei que você é incapaz de entender forma cinematográfica seja num nível elementar, seja num nível minimamente mais elevado, prefiro não me estender por aqui.

Sobre a lista em si:

Se você precisa realmente se escorar no Douchet para defender um videoclip de uma hora e meia da VH1, amorfo e inofensivo de tão informe, terrivelmente monótono e redundante, cuja construção pelo ponto de vista da realização não passa de um grande gimmick de pós-produção (truncar a continuidade das seqüências + voice-over), com um nível de provocação que não vai além da pichação no muro da construção mais próxima da escola (Buñuel? Rapaz, se não fosse você hein...) e com um dom poético que não faria feio se comparado às cafonices malickianas que há 3 anos atrás você ainda defendia enquanto poluíam as telas (e ainda por cima tem a cara de pau de falar sobre “como se pode mudar de gosto assim que um autor passa a ficar popularizado fora da seita”; Tsai anyone?), vá em frente, seja tão intelectualmente submisso à miopia da sua época e tão desonesto e fiel a si mesmo como sempre foi. Keep 'em coming Love!

Mas é necessário fazer algumas observações dentro de uma lógica bitolada, chantagista, publicitária e ecumênica (comoção diante de lista de fim de ano, oh pensador???) como a sua, isto quer dizer de uma lógica de gente covarde que subscreve integralmente - ou seja, totalmente e cegamente - ao pensamento de quem admira para sentir-se assegurado:

- a presença do filme do Gray na lista, nenhum comentário?
- já que o assunto é listinhas de fim de ano (Jesus amado, que discussão caipira...), que tal o Milos Forman na de melhores dos anos 2000 do Douchet - ???
- e já que Resnais e Buñuel também foram astutamente (= convenientemente no caso do primeiro, desajeitadamente no caso do segundo) convocados como escudos nos últimos dias, quê dizer dos textos do Douchet sobre Marienbad e Buñuel? (ah, mas é do período “macmahonista” né, deixa pra lá...)
- e se o Douchet é, portanto, esse ser o qual todos somos obrigados a reverenciar, o que dizer da ausência do Kechiche da lista dele?
- quanto tempo o pessoal deve esperar para subscrever sem questionamento algum a certos gostos peculiares do Luc Moullet como Kevin Smith, Gualtiero Jacopetti, Gérard Oury, Hal Hartley, Tavernier e Jorge Furtado? (e, já que caímos na seara do gosto, essa que você gosta tanto de dizer em outras ocasiões que não lhe interessa, quanto tempo para seguir os passos do Moullet e falar indiscriminadamente mal de Almodóvar e Antonioni, ou os do Rivette e defenestrar Hou e Minnelli?)

Não deixa de ser engraçado e perverso - é, afinal, essa a lógica implacável do humor - que para alguém que por anos fez pouco caso de “gosto” na apreciação intelectual de uma peça artística; não deixa de ser engraçado, eu dizia, que a confusão de gosto (os do Douchet, por exemplo) com método crítico (e é muito mais o método e muito menos o gosto que fatalmente aparece como a principal contribuição dos macmahonistas ao campo da produção reflexiva de pensamento na crítica cinematográfica, a hermenêutica muito mais importante que a simples adesão passiva à quadra de ases - quer dizer, isto para quem tem uma compreensão das coisas um pouquinho menos superficial que a sua) seja tão, como dizer???, instrumental e oportuna dependendo da ocasião... Seria o caso, talvez, de ler alguma coisa que escapasse da sua bem conhecida e bem limitada base de cognição. E para não falar da Foco (Carax, esse grande guru do macmahonismo né...), pois ao contrário de você não quero forçar ninguém a nada, sugiro coisas como as que foram escritas na Lettre du Cinéma, na revista do Eisenschitz, nas revistas portuguesas dos anos '70, na Cinema i Film etc...

Ou talvez até mesmo coisas mais próximas de você e, portanto, mais acessíveis para você, como, sei lá, todos os textos da Contracampo da época em que você a editava que foram subidos sem que você sequer passasse o olho em uma linha.

O que acaba por me trazer à minha “curiosidade” pelos teus textos - ou melhor, tweets - (por sinal, parabéns pelas platitudes e trivialidades proferidas sobre Guiraudie, Hong e Jia), “curiosidade” que nunca vai além da mera utilidade cômica (neste caso, fugindo das tuas intenções). Mas, sendo mais honesto contigo, deveria acrescentar um motivo que me parece comum a ambos: terceiros linkam determinada observação que diz respeito a mim e acabo dando uma olhada.

Fica então a dica: vá comer um feijão com arroz, conde.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

2013





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